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Unindo o útil ao agradável

Aline Brandão


Marco Antonio Gonçalves trabalhou em TI por dez anos antes de direcionar a carreira para o marketing jurídico. Conheça sua história, as dificuldades em mudar de área e as vantagens em conhecer os dois caminhos.

Marco Antonio Gonçalves se formou em Administração de Empresas pela UFRJ, mas deixou a carreira de lado antes mesmo da formatura. Foi durante um estágio na IBM em 1995 que este carioca, hoje aos 36 anos, conheceu e se apaixonou pela novidade chamada Internet. Curioso e autodidata, Marco mergulhou na nova tecnologia por dez anos, até descobrir como podia juntar sua paixão aos conhecimentos de business adquiridos na faculdade.

Em 1999, quando foi contratado para criar o site do escritório Dannemann, Siemsen, Bigler & Ipanema Moreira, Marco já pensava em unir seus campos de conhecimento num emprego só. O caminho encontrado foi o marketing, que ele conheceu ao investir na divulgação do site. Hoje, o especialista em Internet é consultor de Marketing Jurídico, assunto que aborda em vários artigos e nos sites Marketing Jurídico Brasil e marketingLEGAL.

Cinéfilo e pai de dois filhos, Marco falou ao TI Master sobre os diferentes momentos de sua carreira, como é transitar por áreas (a princípio) tão diferentes, além de dar sua opinião sobre o que a TI tem de melhor e o que ainda pode evoluir.

Você é formado em Administração. Como surgiu o interesse pela TI?

Eu estava fazendo o curso de Administração entre 92 e 95 quando comecei a estagiar na IBM, na parte contábil do setor de Recursos Humanos. Foi quando eu tive meu primeiro contato com a Internet. Naquela época, você só tinha o acesso exclusivo da IBM pra algumas pessoas da empresa. Você ganhava um e-mail, depois o acesso FTP... no meio de 95 ganhei acesso à web. Comecei a me interessar por aquilo. Cheguei a abrir uma empresa de hospedagem, mas como ela estava demorando a dar retorno peguei um trabalho no suporte de um provedor, o Pontocom, trabalhando especificamente na área de web.

No início de 97, quando fui trabalhar como analista de sistemas no Instituto Infnet, já estava me distanciando da Administração. Trabalhei com servidores, administração de redes, comecei a fazer treinamentos e ministrar aulas... mergulhei de cabeça em Internet. Mas sempre tive a vontade de “juntar as duas pontas”, tecnologia e negócios.

Quando aconteceu a transição para o marketing?

Fiquei no Infnet até o início de 99, quando fui para o Mackenzie, em São Paulo. Eu esperava “juntar as duas pontas” lá, mas não foi o que aconteceu: acabei fazendo trabalhos mais técnicos. Nove meses depois, voltei para o Rio e fiquei sete anos no Dannemann, um escritório tradicional com foco em propriedade industrial, registro de patentes. Fui para desenvolver o site deles na Internet. Foi o primeiro site no qual eu me envolvi desde o começo. Tive que me preocupar com tudo, dos servidores à usabilidade.

Como eu queria que esse trabalho fosse valorizado, comecei a investir na divulgação do site. Com isso, o escritório começou a desenvolver sua área de marketing e eu me envolvi com essa área. Eles chegaram a contratar alguém para a posição de gerente de marketing, mas não deu certo e a vaga ficou aberta por um tempo. Em 2005, quando estava concluindo a pós em Administração, me candidatei à gerência de marketing do escritório e ganhei a posição.

Hoje, meu envolvimento com marketing jurídico consegue ser ainda mais violento do que foi meu envolvimento com a Internet. A tecnologia continua tendo um papel crucial na minha vida, mas quando migrei pra o marketing, “vesti a carapuça” do profissional da área. Achei que fosse difícil encontrar algo que me empolgasse mais do que Internet, mas encontrei. Consegui unir o útil ao agradável.

Hoje você é consultor de Marketing Jurídico. Conte um pouco desse trabalho.

Eu estou conduzindo um estudo sobre os sites dos maiores escritórios do Brasil. Em 20 sites visitados, só encontrei dois que mereçam menção: um é o do Dannemann, sobre o qual eu sou suspeito pra falar (risos), e o outro é do Azevedo Sette Advogados. Neles, você vê que há a preocupação em fazer um repositório de tudo o que está sendo feito. Os outros são “sites-brochura”: não são atualizados nunca, não têm notícias. Em um dos sites que visitei, a página inicial era a mesma desde o ano 2000. O cliente precisa saber o que está acontecendo, o que o escritório está fazendo. Meu trabalho em parte é despertar a atenção dos escritórios para isso.

O que você levou da profissão antiga para a nova?

Um diferencial que eu levei foi o de já ter me envolvido com tudo que você pode imaginar em Internet. Já administrei redes, fiz sites, dei mais de mil horas/aula, instalei servidor. A experiência de fazer um site de negócios para o Dannemann me mostrou como usar tecnologia a favor dos negócios. Consegui fechar um ciclo.

Geralmente a equipe de marketing entende pouco de tecnologia e fica dependendo da área de TI; e a equipe da TI normalmente tem dificuldade com a parte de negócio da empresa. O pessoal de TI fica muito preso à TI e o pessoal de marketing não conhece os recursos tecnológicos. Eu tive a vantagem de ter uma boa visão dos dois lados. Sempre procurei fazer essa transição – continuar com tecnologia, mas ir também para negócios – porque é uma forma de valorizar o trabalho. Senão, você é apenas mais uma engrenagem no maquinário. Se você consegue fazer pontes, é mais bem-sucedido.

Você fez algum curso em TI ou aprendeu na prática?

Na época você não tinha cursos como tem hoje. Eu confiava no meu inglês e lia muitos tutoriais lá de fora. Tive que estudar na cara e na coragem, era uma realidade totalmente diferente. Comecei a estudar Linux em casa, “dando cabeçada” mesmo. Não havia cursos – talvez em 96 já até existisse curso de Linux no Infnet, mas as empresas não investiam para a gente fazer esses cursos. Só em 97 fiz um curso pra valer mesmo: fui para os EUA estudar servidores da Netscape. Mas o curso não era nenhuma maravilha, a gente chegou ao consenso que sabia mais que o professor. No Mackenzie cheguei a fazer um curso de Linux, mas também não vi nada que já não soubesse.

Eu sou autodidata, então sou suspeito para falar. Quando trabalhei no Infnet, vi que alguns alunos precisavam da explicação do professor, outros precisavam ler muitos livros. Isso varia de pessoa pra pessoa; com o marketing jurídico também me virei por conta própria. Mas sempre tive em mente que você deve fazer treinamentos porque vai usar o assunto naquele momento, não apenas para “botar no currículo”. Senão, acaba esquecendo o que aprendeu.

Que fatores foram decisivos nas duas mudanças de rumo?

Da Administração para TI, nem foi preciso muito. Eu estava começando no mundo corporativo – o trabalho na IBM era meu primeiro estágio, a gente tem aqueles sonhos de ficar rico... e aí surgiu a internet. Quando eu acessei a web pela primeira vez, pirei. É como se apaixonar por alguém: eu não sei o que estava procurando, mas quando vi aquilo acho que encontrei. Tanto é que a Administração ficou pra trás. Foi uma transição fácil.

Quanto à transição de volta, acho que foi porque nunca saiu da minha cabeça que eu tinha que “juntar as duas pontas”. Já no Infnet eu lidava com pessoas de business, que me estimulavam a voltar para essa área. Quando fui para o Mackenzie, pensei ser a chance que eu precisava para juntar as coisas, mas não deu certo. Só decolou mesmo quando eu fui trabalhar no site da Dannemann e houve aquela falta de um gerente de marketing. Aí realmente foi o incentivo que faltava.

Quais foram as maiores dificuldades ao sair da TI para outra área?

O mundo de negócios é um pouco diferente do mundo da tecnologia. Se você está acostumado a lidar com servidores, que respondem de uma forma mais pré-determinada, é difícil se acostumar. Tive que aprender coisas na prática, pegar opinião de todo mundo, fazer um trabalho de comunicação e de conhecimento. Ainda mais porque marketing em escritório é bem diferente do marketing mais tradicional. É uma coisa muito nova, ainda existe uma resistência muito grande.

O profissional de TI só aprende TI; o advogado só aprende a advogar. Só que um escritório de advocacia é um negócio como outro qualquer. Eles querem que funcione, mas não entendem de administração e nem sempre aceitam que um não-advogado diga o que precisa ser feito. Eu tenho que conscientizar o pessoal do escritório a se envolver e participar nesse projeto, porque o trabalho que tem que aparecer no site é o dos próprios advogados.

Tudo começa e termina nos relacionamentos. Muita gente que migra para a gerência de TI não está habituada com isso: a maioria fica meio que presa ao mundo tecnológico, não sabe a importância do que está fazendo para a empresa. Às vezes fazem trabalhos não coordenados, sem saber pra onde tudo isso vai. Por menor que seja um trabalho, é importante saber como ele contribui para o todo. Acho importante saber se relacionar com outras áreas.

Você planejou sua carreira ou apenas seguiu as oportunidades que surgiram?

Em ambas as situações foi uma questão de oportunidade, de momento. A Internet eu peguei bem no comecinho, foi uma coisa natural. Quando surgiu o marketing, me interessou e eu investi. Enxerguei uma oportunidade; não era algo que eu tivesse me preparado 100% para fazer, até então. Poderia até dizer que eu estava planejando continuar em TI e puxar também para negócios quando fui para o Mackenzie, mas isso acabou só acontecendo uns cinco anos depois, no Dannemann. Ao longo da carreira, podem ter surgido outras oportunidades que não me interessaram. O trabalho que eu faço hoje tem mais planejamento, mas nessas duas transições foi enxergar uma oportunidade e arriscar.

Acho que o ideal é aliar oportunidades a um mínimo de planejamento. Se você fizer um planejamento simples e botar no papel, mesmo que seja só uma folha, já vai estar distante de uma maioria que não planeja nada. O mínimo que seja te dá chance de ir mais longe. Mas é preciso aliar planejamento com oportunidades. E para gerar oportunidades, você tem que saber se relacionar bem. Conhecer pessoas, trocar cartões de visitas, fazer follow-up, ver quem pode se tornar parceiro ou fornecedor ou amigo. Um livro que me ajudou muito foi “Nunca Almoce Sozinho”, de Keith Ferrazi. É sobre a importância de cultivar relacionamentos na sua carreira. Acho que o pessoal de TI devia trabalhar mais esse lado.

A diferença de salário foi significativa?

Você tende a ganhar mais se está envolvido num trabalho direcionado para a área do negócio, com aquele foco de “ajudar a fazer dinheiro”. Quanto mais você se aproximar da área estratégica, mais tem chances de ser bem-remunerado. Claro que não dá pra estalar o dedo e subir na hierarquia. E tem quem se satisfaça desenvolvendo num canto o dia todo. Mas você tem que enxergar o valor que seu trabalho traz para a empresa: é isso que justifica o aumento de salário.

O pessoal muitas vezes reclama que está ganhando mal. Sempre acham que o cara que é promovido é o puxa-saco, mas ninguém quer ver que ele correu atrás, fez cursos, ralou. Nesse mundo de altíssima competitividade, você tem que correr atrás – ainda mais em TI, onde tudo muda todo dia. Na maioria dos casos, quem está subindo é porque tem razão de ser.

Para você, qual a melhor parte do trabalho na área de TI?

É algo que eu continuo aproveitando hoje: as novidades. Ver coisas novas é algo que me anima demais, me deixa louco buscar coisas interessantes que estejam surgindo. E daí vem a importância de se atualizar sempre, pra trazer coisas novas para o seu trabalho. É o exemplo do Google: se eles têm muita inovação, é porque as pessoas lá têm tempo e liberdade para se informar, para buscar novidades. Se você não puder ir a eventos ou fazer cursos, pelo menos procure ler feeds e blogs, pra estar sempre antenado. Claro que você tem que saber priorizar o seu trabalho, mas tem que estar sempre ligado com as novidades.

Sobre o artigo

Veiculada no site:
  • TI Master [24/05/2007]

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