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Escritório pode adotar práticas de administração

Marina Ito


O fato de os escritórios serem sociedades de advogados não significa que têm de deixar de lado a organização exigida de uma empresa, inclusive, práticas típicas de administração. A conclusão é do consultor Marco Antonio Gonçalves, que dá dicas, em palestras disponíveis também pela internet, de como o escritório de advocacia pode se organizar para encarar a concorrência.

“Os escritórios precisam se reinventar”, afirmou Gonçalves em sua mais recente palestra, O admirável e inevitável mundo novo da advocacia empresarial, transmitida na quinta-feira (12/2) pela internet. Para o consultor, é preciso investir no escritório de modo que sua gestão seja profissional. Focar em disciplinas do universo da gestão e da administração, como finanças, tecnologia da informação e marketing, é essencial, de acordo com Gonçalves. “Tecnologia e marketing têm sido bastante subutilizadas”, constata. Para ele, utilizar práticas de administração beneficia até mesmo escritórios de pequeno porte.

Questionado pela Consultor Jurídico sobre o porquê os escritórios não se veem como empresas, Gonçalves acredita que, provavelmente, isso deve-se ao fato de a advocacia ser uma profissão tradicional. “Essa questão de ser ou não empresa acaba se transformando historicamente em um tabu para toda a classe”, afirma.

Para o consultor, a origem do tabu passa pela regulamentação da OAB ao proibir a mercantilização da profissão. “Os textos nunca clarificam bem que tipos de atitudes são mercantis e que tipos não. Esse conceito de mercantilização foi introduzido na regulamentação em 1963 em resposta ao surgimento das sociedades de advogados.”

Na palestra voltada a escritórios que atendem corporações, Marco Antonio Gonçalves lembrou que os clientes são empresas. Os departamentos jurídicos dessas empresas, afirma, buscam escritórios que atendam à demanda de maneira estratégica.


Mundo novo

O quadro pintado pelo consultor pode não ser tão agradável para os advogados. Ele lembrou que a tecnologia permite acesso a informações processuais. Mas, ao mesmo tempo em que facilita o trabalho do advogado, também permite que as pessoas tenham acesso mais fácil aos movimentos do processo, o que pode implicar maior pressão por parte do cliente.

O consultor afirma que outro ponto que “merece ficar no radar” é a geração de profissionais que já está ou entrará brevemente no mercado de trabalho. “São gerações acostumadas à tecnologia. Como vão lidar com essa geração dentro do escritório ou clientes com esse perfil?”, perguntou aos participantes.

Marco Antonio Gonçalves conta que, no Reino Unido, já há um site que oferece serviços, como testamento, pela internet. O cliente pede o serviço pelo site, paga com cartão de crédito e recebe o documento sem sair de casa. As facilidades também permitem que escritórios possam atuar em um local distante. O consultor cita as fusões e aquisições entre escritórios. “Nos Estados Unidos, só em 2008, foram anunciadas 70 fusões”, informou. Marco Antonio afirma que não há dados sobre isso no país, mas é fácil perceber que a concorrência está se fortalecendo. Além disso, bancas estrangeiras já atuam no país, embora haja restrições por parte da OAB.

O consultor afirma que, em maio de 2007, um escritório australiano, o Slater & Gordon, tornou-se o primeiro a ter ações na bolsa de valores australiana. Segundo ele, já há mudança na legislação do Reino Unido para que escritórios de advocacia se organizem de outra maneira, como por exemplo com investimento de não advogados.

Na palestra que contou com mais de 100 participantes em uma sala virtual, o consultor citou, ainda, o polêmico livro O fim dos advogados, de Richard Susskind. “Ficaram só no título do livro”, constatou Gonçalves. Segundo ele, a ideia do autor é motivar os advogados a repensarem sua profissão, principalmente, no que se refere aos avanços tecnológicos. “Hoje, há um advogado novo chamado doutor Google”, observou. Para ele, é preciso identificar habilidades que não podem ser substituídas por sistemas avançados ou por mão-de-obra barata amparada pela tecnologia. “Advogados no conceito tradicional vão acabar.”

Ao contrário de outras áreas, a crise tem ajudado escritórios (como os que trabalham com renegociação de dívidas). Qual o objetivo da tecnologia no escritório? O que leva é integrar todas as informações em um sistema jurídico sobre o negócio, sobre equipe, serviços, clientes, valores faturados, etc.. “Sistema jurídico não é só para controlar processo”. A maioria fica só no controle de processo.


Código de ética

Segundo Marco Antonio Gonçalves, são pouquíssimos os escritórios no Brasil que têm um planejamento estratégico e o executam. “O negócio tem de ser repensado regularmente. Discutir essas questões no escritório já ajuda bastante.”

Questionado sobre as restrições impostas pelo Código de Ética da OAB, Marco acredita que elas não impedem o desenvolvimento de um marketing estratégico e orientado a relacionamentos. “Apesar da gritante falta de foco no cliente existente na regulamentação, ainda assim é possível fazer um bom trabalho”, acredita.

O consultor explica que há uma diferença entre o marketing tradicional e o jurídico. O primeiro seria o bombardeio de anúncios em rádio, TV, revistas e jornais. Já o marketing jurídico, explica, é pessoal. “O que funciona para empresas de produtos e serviços é vedado aos advogados. Eu não vejo isso como um problema. Existem n maneiras de um advogado ou escritório desenvolver o seu marketing: artigos, livros, palestras, aulas, blogs, principalmente, networking”, afirma.

Embora entenda que a regulamentação não restringe o marketing jurídico, Gonçalves acredita que é necessário alterá-la a fim de que, principalmente, escritórios pequenos possam se beneficiar da internet. “O Regulamento 94 da OAB, de 2000, foi pioneiro ao mencionar a internet em seu texto, mais especificamente a possibilidade de um escritório manter um site informativo na internet. Mas foi só isso”, afirma. “Por que não avaliar um regulamento que melhor considere as possibilidades de divulgação oferecidas pela internet, muitas de baixo custo e acessíveis aos pequenos?”, questiona.

Sobre o artigo

Veiculada no site:
  • Consultor Jurídico [14/02/2009]

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